REVISTA SHOW BIZZ - 1996
Bem, essa foi a primeira revista que consegui do GD, e simplesmente não canso de ler essa entrevista com o BJ por telefone, resenha sensacional! Acompanhe:
Comédias da Vida Privada Nada de luta contra o sistema. O Green Day quer mais é fazer sucesso com muito humor (por Sérgio Martins)
Sexta-feira, 7 de junho. A Redação emenda o feriado de Corpus Christi e eu mofo ao lado do telefone, esperando minha entrevista com Billie Joe, do Green Day. O moço faz aquele esquema peixe-ensaboado: marcou e desmarcou a entrevista três vezes, todas em cima da hora, o que deixa na gente aquele velho sentimento de cabreirice.
Quatro horas em ponto e o moço liga, de algum ponto dos Estados Unidos. "Alô, Sêrgiou? Aqui é Billie Joe". Apareceu a Margarida, olê olê olá. E pronta para se desculpar dos canos consecutivos que deu na gente. "Minha mulher ficou doente e tive de tomar conta dela."
Quer dizer que aquele garoto de cabelos verdes, olhos arregalados e (dizem, que eu não medi!) pau pequeno fica em casa, cuidando da patroa e do filho? Sim, nada mais normal para um cara cujo lar, nos últimos dois anos, resumiu-se a quartos de hotéis e saguões de aeroportos. Em menos de três anos, o Green Day lançou dois discos - Dookie e Insomniac - e excursionou sem parar, o que levou a banda à beira de um colapso. "Mike (Dirnt, o baixista) teve problemas cardíacos; eu passava as noites à base de café e calmantes", desabafou para o semanário inglês New Musical Express. O stress coletivo do Green Day transformou a provável vinda da banda ao Brasil - o diz-que-me-diz é forte - numa coisa incerta. "Eu não sei o que o nosso empresário está tramando. A gente apenas pediu um tempo para descansar."
O cansaço e a pouca para shows e entrevistas são eventuais na carreira do Green Day. Seus três integrantes geralmente se comportam como aquele seu amigo chapado do segundo grau, fazendo piadas escatológicas, brincando sobre o tamanho de seus paus e adotando uma postura "estou pouco me lixando para tudo."
"O segredo do sucesso do Green Day é que nós nunca tivemos uma meta. A gente nunca falou: "Vamos montar um banda de punk rock, ganhar muito dinheiro". Queríamos apenas nos divertir", conta.
É por essas e outras que Joe estranha o comportamento do Offspring, que deu um bico na independente Epitaph para assinar com a Sony Music. "Cara, isso é tão maluco! Eles levantavam a bandeira dos independentes e depois assinam um contrato milionário de sete milhões de dólares! É muita doideira eles se contradizerem desse jeito."
Billie Joe pode se encher à vontade, mas o Green Day quase não assinou com a Warner. No fim, valeu o esforço do produtor Rob Cavallo, que, dizem, atraiu os verdinhos para a gravadora com o fino da cozinha hindu e sessões noturnas regadas a Black Sabbath e muita, mas muuuita maconha. "É mentira! Eu nem gosto de Black Sabbath", retruca Joe, para depois encarnar um espírito de porco. "Quanto à maconha... Bem, nós fumamos mesmo!"
A insistência de Cavallo acabou por catapultar a banda ao estrelato. Dookie, álbum de estréia da banda na Warner, vendeu 12 milhões de cópias. No ano seguinte, foi a vez de Insomniac, um "fracasso" de dois milhões de unidades vendidas, apenas nos Estados Unidos (aqui no Brasil, Dookie e Insomniac venderam 180 mil e 110 mil, respectivamente). Joe tem a resposta na ponta da língua para a má recepção ao último disco. "Insomniac não foi tão bem-sucedido porque não tinha tantos elementos pop", explica. "As letras também eram meio baixo astral, falando de drogas e depressão. Mas garanto que nosso próximo disco será bem-humorado."
Billie está tão alegre que nem encana quando pergunto de sua tão falada homossexualidade. Várias leitoras da SHOWBIZZ mandarm cartas perguntando se o rapaz é ou não é gay. Principalmente porque ele cismou de colocar o grupo Pansy Division (Divisão Maricas) na abertura de seus shows. O Pansy tem músicas como "Dick of Death" ("Pau de Morte") e "Pee Shy" ("Pingolim Tímido") como carro chefe de seus shows. "Podem me chamar do que quiser. Até mesmo de gay. Boy George me acha uma gracinha? Nem gosto da música dele", dispara.
Billie também não esquentou quando seu pênis pintou ao vivo e a cores na Playgirl, revista dedicada às meninas saidinhas. "Não foi a foto mais lisonjeira do meu corpo".
O lado cuca-fresca de Billie Joe só toma chá-de-sumiço quando duvidam da veia punk do Green Day. "Essas pessoas não me conhecem. Como podem duvidar da minha banda?", resmunga. As farpas têm direção certa: John Lydon, ex-Rotten, que voltou com os Sex Pistols e jogou sua metralhadora giratória contra os punks americanos.
"Ele lembra a minha vó. A voz dele não parece a de uma velha reclamona?" brinca Joe. Depois, hora de falar sério. "Johnny tem inveja do nosso sucesso. Os Sex Pistols nunca venderam muitos discos, enquanto que nós somos um fenômeno de vendas. O Green Day é que tem de ser chamado de 'a grande trapaça do rock'n'roll'."
Billie Joe depois retoma a calma habitual. "Olha, isso não quer dizer que eu não goste dos Sex Pistols. Acho eles importantes pra caramba; Steve Jones é um grande guitarrista e as letras de Johnny são sensacionais. Só que eu não gasto minha grana para vê-los ao vivo."
Aliás, o dinheiro tem rolado legal. Bem diferente da época em que Billie Joe, Tré Cool e Mike Dirnt moravam num porão, adoravam Husker Du e tocavam em moquifos.
As únicas revistas que se importavam com os caras eram fanzines, que levavam nomes como Pocketful Of Vomit e Urine Samples - Saco de Vômito e Exame de Urina.
Hoje, o Green Day passeia pelas capas das revistas mais importantes dos Estados Unidos, da alternativa pero no mucho Spin à tradicional Rolling Stone. Porém, certas manias dos tempos de dureza ainda são mantidas. Como a de fazer shows com ingressos abaixo da faixa de mercado. "A gente cobra pelo que vale. Não ganhamos tanto quanto o Metallica, mas temos o suficiente para sustentar nossas famílias."
O assunto família é um prato cheio para sensibilizar Joe. Ele deu seus primeiros passos musicais ao lado do pai, um músico de jazz, que morreu quando Joe tinha oito anos de idade. "Eu me lembro da gente tocando na sala de casa, ele dizendo: 'Você quer tocar rock'n'roll? É tão fácil!'". As lições paternas animam tanto o green Joe que ele se apressa em contar as primeiras manifestações musicais do pimpolho Joe, de apenas dois anos de idade. "Tenho uma mini-bateria em casa e adoro quando o vejo tocar. Acho legal as crianças aprenderem um pouco de música, mesmo que elas não sigam carreira", diz.
A dedicação ao filho fez Billie dar um tempo nas drogas. "Eu amo ficar chapado, mas ultimamente tenho me cuidado melhor. Não tomo drogas na frente do meu garoto". Billie também promete caprichar na educação do pequeno Joe. "Gosto de mimar o meu filho. Curto vê-lo comer waffles e atum", corujeia.
O filhote Joe é o primeiro rebento de Billie e Adrienne, um romance que nasceu muito antes de Dookie. Os outros companheiros de banda também estão amarrados: Mike namora Anastasia e Tré tem uma filha, Ramona. Êpa! Os filhos dos caras se chamam Joe e Ramona?
"É, mas não tem nada a ver com os Ramones", conserta. "O nome Joe vem do pai de Adrienne. As pessoas sempre brincam com isso."
Quem mais tira sarro da situação é o próprio Tré. "Ele anda inventando o futuro de nossos filhos. Diz que daqui a 16 anos, quando entrar de surpresa no quarto de Ramona, às três da manhã, vai pegar Joe pulando a janela", gargalha.
Bem, já sabemos que em seu tempo livre Billie Joe cuida da patroa, entope o filho de waffles e fofoca com seus companheiros de banda. O que mais ele anda fazendo? "Compro discos. Minhas últimas aquisições foram Murder Ballads, do Nick Cave, e Anthology 2, dos Beatles. Você curtiu a coletânea deles? É impressionante como algumas versões são melhores do que as originais!"
O papo está bom, mas Billie tem de desligar. Não sem antes sapecar um "I love you Sergiou", prometendo outra conversa quando vier ao Brasil. Punk dizendo que me ama? É ruim, hein?